Solitudes
de Maria Odete Olsen
hoje fechei as cortinas tranquei as portas apaguei a luz
necessitava de sombras vidros embaçados
espaços em penumbra e folhas em branco
fosse a vida atemporal e não se identificasse o dia e a noite
que o corpo tivesse como referencial apenas suas marcas e imperfeições
e as lágrimas ah as lágrimas! eram necessárias e que rolassem
hoje acordei sem histórias e indiferente ao amor
felina rondava meus espaços demarcando áreas
rasgando sedas buscando razões nos jornais
nas capas dos livros algo que me atingisse
que fosse doce e amargo suave e cruel
mas que emocionasse ou me enjeitasse de vez
hoje mergulhei no mais profundo de mim mesma
em busca de razões que justificassem essa persistência de existir
em alguns momentos paro e fixo a opacidade do vaso
e nada vejo além de um vulto e isso me agrada o ser e não ser
ah como o cérebro é opressor impiedoso e inacessível
como é deprimente saber-se instrumento de diálogos internos
a voz de dentro que empurra ao mesmo tempo que retém
assim vivi o momento refém de mim e de outros
nas fotos nos quadros e nas violetas que voltam a florir no inverno!