A Lei Seca e a Ética do Cotidiano
por Maria Odete Olsen
“às vezes, é difícil decidir o que devemos escolher e a que custo, e o que devemos suportar em troca de certo resultado, e ainda é mais difícil firmar-nos na escolha, pois em muitos dilemas deste gênero o mal esperado é penoso…” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômacos, p.501).

Os números são avassaladores, o Brasil gasta R$ 23 bilhões por ano em atendimento médico às vítimas do trânsito sem contar que estamos perdendo uma grande porcentagem dos nossos jovens em acidentes. Foram 36 mil pessoas, ano passado. Um estudo realizado em 2005, feito com 3.042 cadáveres no Instituto Médico Legal de São Paulo, comprovou a existência de álcool em 44% deles.
Para conter tudo isso, somente os rigores da lei. Beber e dirigir hoje no Brasil, virou crime. A tolerância para o teor de álcool no organismo é de 0,2 grama por litro de sangue ou 0,1 miligrama por litro de ar expelido dos pulmões, como afirmou Vilma Leyton, professora de Medicina Legal da USP à revista Época dessa semana.
Pois é, a nova dosagem virou um problemão e a nova polêmica nacional.
Ou seja, se você saborear dois bombons com recheio de licor podem ser o suficiente para levar uma multa de R$ 955, sete pontos na carteira de habilitação e suspensão do direito de dirigir por um ano, de acordo com a nova lei sancionada que regulamenta os níveis de tolerância de álcool. Pior, a situação pode complicar se for feito bochecho de Listerine. Quem se submeteu a experiência, conferiu que o bafômetro indicou 1,55 mg/l de álcool no ar expirado. Esse volume é cinco vezes maior do que basta para ser detido em uma blitz da Polícia Militar. Dez minutos depois, o motorista já estava sem qualquer índice de álcool na expiração.
Enfim, o brasileiro reencontra a lei. É para ser sério. Mas, até quando?
Me perdoem, mas não imagino em hipótese alguma um desembargador de qualquer instância superior saindo de seus Omegas preto forrados de película G-8, soprando no bafômetro, como qualquer reles mortal. Nem um deputado, nem o grande empresário, nenhum desses. De jeito nenhum. Mas a onda reversa já está chegando. É só você buscar na internet:
Folha de São Paulo, 02.07.2008 : O delegado Tabajara Novazzi Pinto, diretor da Academia de Polícia, afirma que o problema da lei é que o motorista não tem a obrigação de fazer o teste do bafômetro, nem o exame de sangue ou o teste clínico que pode determinar se ele consumiu álcool. O direito de não produzir provas contra si mesmo é assegurado pela Constituição Federal.
Globo, 01.07.2008: O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, disse nesta terça-feira (1) que a nova lei que proíbe o consumo de bebida alcoólica por motoristas, conhecida como “lei seca”, pode ser questionada no tribunal.
E assim retornamos a mediania de Aristóteles para quem o comportamento seria, pois, o grande fator distintivo da ética; o modo de agir perante os outros, perante si próprio, perante os que são próximos, perante a Humanidade.
De repente me vem à mente a reflexão da garçonete do barzinho em frente à Saraiva no Iguatemi de Floripa, para quem, o grande investimento hoje é ir prá cadeia. Comer, beber e dormir de graça e sem a preocupação de pagar as dívidas. Apenas a coragem de encarar o pequeno (sic) desconforto da superpopulação. Dito assim, risonha e na cara dura.