Não é o que parece

admin | Crônicas de Olsen Jr. | Quinta, 7 de Agosto de 2008

por Olsen Jr.

Estaria a musa no barco viking??????

Tarde de agosto na Ilha. Tempo nebuloso e uma garoa fina dardeja o ar. As partes verdes na Lagoa da Conceição ao longe lembram os fiordes da Noruega. Observo a paisagem com um sentimento nórdico, solitário, imaginando que ela – a musa – bem que poderia estar ali comigo naquela hora, mas foi um desvario repentino, logo penso ver um barco viking quebrando a monotonia daquelas águas plácidas e o meu sentimento de compartilhar aqueles momentos é interrompido pelo toque do telefone. Detenho-me um pouco mais e fixo aquele quadro…
Atendo:
― O senhor é o “seu” fulano?
― Sou!
― O senhor mora com mais pessoas?
― Moro com os meus fantasmas… E, aliás, “eles” estão em cada vez maior número.
― O senhor trabalha em rádio?
― Não, sou um escritor…
― Desculpe, é que com essa voz, pensei que o senhor fosse locutor de alguma rádio.
― Sem problemas, essa é uma linguagem nossa.
― O senhor é casado?
― Divorciado!
― Ah! O senhor tem faxineira?
― Não, aqui em casa faço a faxina da casa, a barra das calças, prego botão nas camisas, lavo e passo roupas, faço a minha comida, enfim, saí de casa com nove anos, e nada disso me é estranho… Claro que pensei em Marx, mas era outra história…
― O senhor costuma comer em restaurantes?
― Bem, argumento, dependendo do que se considerar como “alimento” como em qualquer lugar, em cima da mesa, no banco do carro, no banheiro do avião, na cozinha do restaurante…
― Como senhor?
― O que eu quero dizer é que quando se está faminto não se enjeita alimentos e nem lugar para degustá-los.
― Ah! Sim, claro… Risos…
― O senhor come carne diariamente?
― Agora não, mas já comi… Por questões de saúde, só peixe… Mas nos finais de semana não abro mão do bom e velho churrasco de guerra…
― E o senhor bebe?
― Bem, com churrasco não dá pra tomar suco de laranja ou água mineral, dá?
― Não, não… Claro que não…
― Tomo minha cervejinha, de preferência aquela de Blumenau, a Eisenbahn…
― Ah! Tudo bem, e o senhor costuma comer saladas nas refeições?
― Sim, pelo que já falei antes, saladas verdes, de preferência e frutas vermelhas…
― Quantas vezes por semana?
― Todos os dias.
― Se fossemos considerar o seu estado de saúde atual, como o senhor classificaria, ótimo, bom, regular ou…
― Diria que “inspira cuidados”…
― O senhor vai ao médico regularmente?
― Uma vez por ano, mas aprendi a controlar a minha alimentação, o colesterol, os triglicerídeos, a pressão, etc.
― Ah! Bom, e como é o tratamento na área de saúde em sua cidade?
― Bom, a pior coisa que pode acontecer para alguém que mora aqui na Ilha seria ficar doente e não ter um plano de saúde…
― O senhor tem um plano de saúde?
― Não! Calma, sou uma pessoa inteligente, culta, tenho os meus métodos…
― Bem, muito obrigado pela entrevista, agora vou passar para minha superiora que vai fazer mais três perguntas para uma avaliação dessa conversa…
A outra mulher me faz três perguntas que já haviam sido feitas e dou as mesmas respostas, indagou, inclusive, se trabalhava em rádio (porque com esta voz, deveria) e se apresentou como alguém ligada ao Ministério da Saúde…
Educadas e eficientes, penso, mas será que irão falar com todo o mundo?
… Volto para a minha varanda, a placidez daquelas águas na Lagoa da Conceição me arrebata, vejo – de fato – um barco viking singrando as águas, se aproximando da margem, em minha direção… E ela, a musa, como uma Valquíria, emerge tornando longínquos os fiordes, agora, foi quando dei por mim, só, lembrando da pergunta da mulher no telefone: “sobre o meu estado de saúde?”…
Huumm! Inspira cuidados. Acho!

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

Descobertas tardias

admin | Crônicas de Olsen Jr. | Terça, 29 de Julho de 2008

por Olsen Jr.

Ave morta com o estômago cheio de pedaços de plástico

É domingo. Há uma luminosidade que difere dos outros dias. O inverno deu o ar de sua graça nesse ano. Guerrilheiro de mim mesmo, assim é que me sinto: com todas as causas, ou nenhuma ou só a minha. A sobrevivência já é uma boa questão. Parece que está todo o mundo nessa, mas ninguém diz nada. Percebo pela aflição ao redor.

Pego o prato, os talheres, um guardanapo, vou ao bufet e me sirvo: dois morangos, meia fatia de abacaxi, três pedaços de abacate, quatro folhas de rúcula, dois cubos de polenta frita, um bolinho de arroz e dois nacos de tender assado… Não devia, mas pedi um chá verde “Feel-good” com laranja e gengibre.

Sento no meio da turba para me confundir com ela. Mesa para quatro lugares e estou sozinho. Faço daquele momento um ritual, que mais não seja, é o único contato que tenho com o mundo externo. Há tempos, sem dar por mim, fui transformando-me numa espécie de ermitão moderno. De repente descobri que tudo o que preciso está na minha casa, livros, discos, umas caixas cheias de papel, recortes de jornal, fragmentos de um passado que levo sempre junto comigo para ter a certeza de que já existi em outros tempos e que a vida nem sempre foi assim. Ah! Se foi melhor? Não quero pensar nisso. O importante é o “agora” é este “estar aqui” e a consciência de tudo isso.

Então ta, ficamos assim, penso enquanto vou mastigando ritualisticamente aquela ninharia que como todos os dias, o sujeito passa a vida inteira emprestando a sua força de trabalho para os outros, tentando convencer patifes incompetentes de que um pouco de idealismo ainda vale muito, não tem arreglo (alô revisão, é arreglo e não “arrego”) também, no meu caso, não faço, nunca fiz e nunca farei concessões, não peço favores e não os devo, sou uma espécie de talento desperdiçado, mais ou menos o que disse Ernest Hemingway a respeito de Scott Fitzgerald “Seu talento era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma borboleta. Houve uma época em que ele tinha tanta consciência disso quanto a borboleta, não ligando para o fato de que seu talento podia apagar-se ou desaparecer de todo. Mais tarde começou a preocupar-se com as asas feridas e sua estrutura; aprendeu a refletir, mas já não conseguia voar porque o amor ao vôo o abandonara. Restava-lhe apenas a lembrança dos dias em que voar fora um ato natural”.

De tanto recitar para mim aquele texto acabei decorando-o. Não é que esteja ressentido comigo mesmo, ou talvez seja isso e me recuse em acreditar? A verdade é que estamos sozinhos. Tenho a sensação de não fazer parte de nada. E não me falem em esperança. Basta uma olhada ao redor para entender. Falando nisso, se o cretino ali na frente gritando ao celular tivesse consciência, desligava o aparelho, alto daquele jeito e falava diretamente, economizava bateria. Tenho de rir. Se pudesse receber de volta os valores gastos, pediria demissão da humanidade (sei, alguém já deve ter dito isso antes).

Gostaria de ficar mais um pouco bebendo o meu chá, mas os olhares concupiscentes para o lugar que estou ocupando me dissuadem. Saio devagar. Detenho-me diante de uma vitrine, mas evito olhar para a imagem refletida no vidro, penso em Dylan Thomas “alguém está me matando de tédio. Acho que sou eu”. Não escondo o cinismo.

Na rua, meu olhar paira na faixa de pedestres, observo um cachorro atravessando-a com desenvoltura, o animal fez o que a maioria dos mortais não faz, pensando bem, reflito depois que o vi chegar são e salvo do outro lado, pode haver esperança, mas teríamos que começar novamente, de baixo, como aquele cão que, pavlovianamente, pelo menos já aprendeu a atravessar uma rua com segurança!

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

A mulher do sargento

admin | Crônicas de Olsen Jr. | Quinta, 26 de Junho de 2008

Olsen Jr.

Os rumos que tomamos na vida. Está aí um bom assunto. Penso nisso enquanto estou cortando os temperos para fazer uma sopa de legumes. Na mesa ao lado, um cd de Tony Sheridan que comprei naquela tarde em um sebo aqui em Florianópolis. Comento com minha filha e com o marido dela que os Beatles acompanharam este cantor em 1961 em Hamburgo, na Alemanha, no início da carreira. O nome deles mal aparecia no cartaz que anunciava o show. Quando a estrela principal descansava, nos intervalos, os Beatles mandavam ver improvisando tudo o que sabiam. Uma das músicas, My Bonnie, do folclore norte-americano, tocada em ritmo de rock foi a pedra de toque do primeiro sucesso deles. Aquele arranjo nem constava no cd que havia adquirido, em compensação estava lá, Cry for a Shadow, de George Harrison, a única só instrumental que gravaram em vida.

Eles ouvem atentamente o que estou dizendo até a conclusão “vá que esta questão caia num destes concursos públicos que se fazem por aí”, rimos.

Depois volto a pensar nas circunstâncias que nos fazem escolher as trilhas de nossas vidas. Entre os meus amigos (são poucos, mas são bons) temos algumas coisas em comum, por exemplo, a maioria é formada em direito, quase todos exerceram (ou ainda exercem) a atividade de jornalista e no fundo, se fosse em outro lugar, na matriz por exemplo (leia-se Estados Unidos da América) gostaríamos de ganhar a vida como escritores.

Como isso ainda não é possível, vamos gastando tempo, energia e abreviando a vida com outras atividades paralelas para manter uma dignidade e a vida valendo à pena, mas que dói, dói.

Dia destes, comentávamos lá na Taberna do Spinoza, no Mercado Público, com o Raul Caldas, sobre um conhecido nosso, perfeitamente “encaixado” na categoria já explicitada acima (formado em direito, jornalista e escritor) e que por circunstâncias outras caiu na Procuradoria Geral do Estado. Tudo parecia normal até um dia em que precisou dar um parecer sobre um processo. A peça jurídica em questão tratava de um pedido da mulher de um sargento que, segundo a suplicante (sempre quis usar esta palavra em algum lugar) havia sido morto em serviço e, portanto, ela evocava (essa também é dose) o direito de receber uma aposentadoria por conta de estar viúva do dito cujo. Este “nosso” amigo não teve dúvidas. Depois de “profundas análises” cotejadas (essa é de matar) com o código penal, a constituição brasileira e até mesmo a própria consciência (de poeta e homem da vida) cerca de dez dias mais tarde, em laboriosas (huumm!) e diligentes 15 linhas, deu o seu veredito que culminava com a palavra: “conceda-se”… Substituindo o indefectível “como requer” de antigamente.

A secretária, habituada com os pareceres de dezenas de laudas, quando viu aquelas pungentes 15 linhas, indagaou: “mas doutor, é só isso mesmo?”. “Por que?”… responde indignado o nosso amigo, “queria que escrevesse mais?”…

O procurador geral chamou este amigo e sem delongas, tascou “você é procurador do Estado e não um representante dos magoados e ofendidos da terra”… O cara ainda argumentou “Mas o sargento morreu em serviço!”… “o sargento estava bêbado”, acusa o procurador… “Mas poderíamos aliviar a vida da pobre mulher”, argumenta o nosso homem na procuradoria, quando foi interrompido pelo outro que não estava pra brincadeiras “Além do que, o colega dele que estava junto no dia do acidente também morreu”… Depois de um silêncio ensurdecedor (para usar uma frase original) este amigo comum saiu-se com esta: “quer saber, não sirvo pra isso não, este negócio de parecer não é comigo, oh! Prefiro fazer o Boletim Oficial aí da procuradoria e não se fala mais sobre isso!”… É, e não se falou mais mesmo, a não ser no Boletim.

Para Raul Caldas Filho, C. Ronald, Ricardo Hoffmann, Artêmio Zanon e Péricles Prade.

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

Os poltrões

admin | Crônicas de Olsen Jr. | Terça, 17 de Junho de 2008

por Olsen Jr.

A vida e o que diz respeito a “ela” chegou a tal ponto que não podemos mais ignorar “o quê” pode torná-la pior, ou mais difícil de levar, como se queira. Claro, poderia estar falando das “coisas” boas, mas o ideal que se quer cada um os elege, mesmo em sonhos, eles permanecem lá, tangíveis, portanto. Detenho-me agora no “coletivo”, nestes pequenos atos que nos fazem pensar na Suíça, por exemplo, ou nos países escandinavos com certa mal estar em contraposição ao “nosso” cotidiano insolente, brutal, cínico, grosseiro, canalha, hipócrita, inviável.

Tem indivíduos que se especializam em embrutecer ainda mais a vida, em desviar nossa atenção daquilo que poderia nos tornar melhores com atitudes de grosseria, de comportamentos cuja insolência apenas engrandece a nossa pequenez e, é desse ser que me vou ocupar. Daquele cujo estereótipo apenas é humano, tudo o mais são características do que se conhece genericamente como “poltrão”.

O poltrão não tem uma classe definida, pode ser um remediado ou um milionário; também não possui um sexo específico, pode ser macho ou fêmea com ornatos de boutique ou não, enfim, a característica que os aproxima e une é sempre a mesma: uma falta de educação que vem acompanhada da ausência de respeito (por si e pelos outros) e temperada com uma dose de egoísmo que os faz acreditar que o mundo existe porque “eles” o habitam.

O poltrão legítimo leva consigo o seu “bem estar” no mundo, sente-se sempre à vontade em qualquer lugar que vá, principalmente quando faz turismo, abrir a janela do carrão importado e jogar garrafa de plástico ou latinhas de cerveja pela janela é muito natural em seu comportamento, que mais não seja, porque está pagando bem para os nativos efetuarem a limpeza depois que for embora. Poltrão que é poltrão gosta de ostentar, afinal as suas posses compensam outras deficiências que se tornam evidentes, como afirma o poetinha lá na Lagoa da Conceição, “saímos da barbárie para a internet sem um estágio intermediário de civilização e isso está fazendo a diferença”.

O poltrão estaciona o carro na beira da praia, abre o porta-malas e despeja aquele som todo quebrando a harmonia do ambiente, pra ele é natural trazer a própria frustração de casa; o poltrão entra no restaurante e procura um canto quando então se senta no lado de dentro da mesa deixando a companheira exposta; poltrão nenhum é capaz de um gesto que denote gentileza, isso quebraria o encanto de sua solidão; o poltrão te ultrapassa na rampa de um shopping e não perde a pose quando você chega junto com ele no semáforo lá embaixo, afinal uma circunstância que não ocorre sempre; o poltrão não admite quando está em uma fila mesmo em casa lotérica, que haja privilégios para idosos e gestantes ou portadores de necessidades especiais; o poltrão aprecia discutir com um caixa de supermercado sobre o ingresso do cachorrinho da mulher que o acompanha, amiúde o sujeito ignora que o grande cachorrão é ele próprio… Poxa! Cada um pode escolher os seus próprios exemplos…

Agora, você tem certeza que está diante de um poltrão quando acabam de trazer o teu café com aquela “broinha mineira” e o sujeito da mesa ao lado acende um charuto. Depois da primeira baforada você olha pra ele e com sarcasmo afirma “fumar charuto é um charme”… O cara surpreendido pelo elogio agradece com um “muito obrigado” e acrescenta “questão de bom gosto” …É, você pensa, bom gosto para uns, mau comportamento para outros e tudo o mais que se dane, enquanto pede a conta, antes de sair outra vez indignado!

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

Congratulações

admin | Crônicas de Olsen Jr. | Sexta, 25 de Abril de 2008

por Olsen Jr.

Falando francamente, não acredito que chegue aos 60 anos. Por várias razões que não vêm ao caso. Mas eu não conto, neste caso. O fato é que, em meados de 1975, ela era a mãe da mulher que eu amava. Cabeludo, barbudo, jeans ensebado (como diria o Woody Allen), algumas idéias na cabeça e, claro, todo o tesão de mudar o mundo. Quando cheguei, me olharam como todos olham aqueles que chegam. Havia certa desconfiança, afinal, como se dizia na época “cabelos compridos, idéias curtas”.

O tempo passou. Com o tempo, o conhecimento. Aprendemos a ver o lado positivo, o que faz a diferença, em outras palavras. Já distinguimos qualquer sujeito de um sujeito qualquer.

Não fui diferente. Fiz o que fiz na época em que deveria ter feito. Então, fui integrado na família. O irmão mais novo “dela” (da filha) dizia que, finalmente, havia um “cara” legal… Deduzo que os “outros” não eram legais… O que quer dizer isso? Nada. Apenas uma questão de marketing pessoal, supondo que insistam.

Mas aí, vi naquele ser, na mãe da mulher que eu amava, uma lutadora com um jeito peculiar de encarar a vida e todos que a integravam. Havia, claro, nos finais de semana, aquele pudim de leite condensado que ali se chamava - na intimidade - de pudim de leite moça; também aquela cuca de farofa com banana sempre secundada de um café forte em que o sono era afugentado com muita categoria. Depois, se disposição houvesse, poderíamos jogar uma canastra em família em que certas forças eram medidas não sem antes muito riso e determinação. Bons momentos aqueles, belos fins de semana que não voltam mais.

Agora, depois de muito tempo, de muita água já passada por debaixo da ponte, recebo, ou lembro, que esta semana fizestes 75 anos. Passo a recordar tudo isso, naquela década de 1970 em que vivíamos a ditadura militar ainda, e o teu carinho era tudo o que um garoto gostaria de ter e, ao teu jeito, do teu modo, inspiravas este aconchego, com uma ternura nunca explícita abertamente, mas exposta em cada gesto, em ações que conspiravam para uma unidade familiar que há muito não sentia, mas estava presente como uma extensão de minha própria casa, onde me sentia bem, onde me sentia gente, onde a família justificava todas as ações, onde - principalmente, me sentia humano.

Você faz aniversário hoje, tia Elvira. São 75 anos de vida. Poxa, 75 anos não é para qualquer um. Penso na minha própria mãe que morreu com 55… e de meu pai, com 72. E a vida toda correndo por fora, inculta, célere, implacável. E nós confundindo-se com ela. Deus meu, onde tudo isso vai parar? Sim, sei que tudo se resume em lembranças vagas, afinal, é o que resta para nós, os poetas, recordar fatos e feitos, com estas migalhas que levamos tudo adiante, precisamos nos atochar de heroísmo. Afinal, temos de acreditar que vale a pena, senão como suportar o peso de nosso passado, a saudades de nossos ausentes, a dor pelo que não entendemos, os desígnios que parecem ser traçados antes de nascermos e sobre os quais não temos nenhuma ingerência…. Assim é a vida, assim é a vida.

Hoje, portanto, neste aniversário que transcorre, de onde estou, queira receber o meu carinho, como um filho ausente, incapaz de abraçá-la, mas solidário com esta possibilidade. Afinal, como se dizia antigamente, é a intenção que conta, mais que do fato, a vontade de exercer esta prerrogativa, ausente, mas solidário, unidos neste amplexo mundano, à distância, como o filho pródigo, repito, que já foi perdoado mas não hesita em manifestar o seu desencanto com tudo ao redor, ainda que este desencanto seja materializado num abraço não dado, mas ainda assim como a mãe que não tenho mais, possível. Vai então, meu parabéns e a gratidão por fazer parte ainda desta família.