O poeta alagoano e o cd dos 40 anos

Maria Odete | Prosa & Poesia | Terça, 2 de Setembro de 2008

José Inácio Vieira de Melo

José Inácio Vieira de Melo, poeta alagoano radicado na Bahia, comemora seus 40 anos com o lançamento do cd poemas A casa dos meus quarenta anos , na livraria LDM Multicampi, em Salvador, dia 13 de setembro. José Inácio é jornalista, co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana e colunista da revista Cronópios. Eu o conheci em 2005 junto com outros poetas nordestinos, quando estive em Salvador e eles realizavam o projeto Malungos, no Rio Vermelho. Publicou os livros Códigos do Silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), A terceira romaria (2005) – Prêmio Capital Nacional de Literatura, do jornal O Capital, de Aracaju (SE), e A infância do centauro (2007).
José Inácio Vieira de Melo, fala com exclusividade ao blog do Educação e Cidadania.

Maria Odete - Para que ou a quem serve a poesia nesse mundo globalizado, “tecnologizado” se assim pudermos definí-lo e apressado. Voce realmente acredita que as pessoas ainda param para folhear um livro e ler um poema?

JIVM – A poesia serve para aqueles que a buscam, para aqueles que querem ir para além dos muros do sistema e freqüentar as esferas do delírio. A poesia não tem uma finalidade ordinária, não tem um fim prático, por estar em outra dimensão – a poesia é algo extraordinário e quem a experimenta jamais será o mesmo.Eu realmente acredito que algumas pessoas lêem poesia. Sei que são poucas, mas existem, são as escolhidas.

Maria Odete - Segundo o crítico Adelto Gonçalves, você é um poeta atrelado às raízes populares, inspirado por repentistas e por Jorge de Lima (estou correta?) Em seu terceiro livro A Terceira Romaria, vc deixa isso bem claro ao escrever o poema Ciço Cerqueiro:

O meu é fazer cerca:
cavar buraco, aprumar mourão,
esticar arame com pé de cabra,
apregar grampo nas estacas.

Em troca peço pouco
basta me dar leite azedo
rapadura, farinha e uma hora
de sombra de pé de pau.

Pelo pouco que pesquisei, muitas destas palavras, refletem imagens de sua vida e de sua infância. Você acredita que ao fazer este revival o poeta cumpre a sua missão de trazer a tona realidades que o cotidiano acaba solapando as pessoas?

JIVM – Desde os repentistas, vates populares e mestres intuitivos da métrica, até os poetas indispensáveis do cânone ocidental, são referências na minha produção. Jorge de Lima, meu conterrâneo é um dos poetas da minha predileção e, sem sombra de dúvidas, um dos maiores da língua portuguesa. O cenário e os personagens sertânicos aparecem com freqüência na minha poesia, mas não chegam a ser determinantes. Uso o vocabulário e os costumes do sertão, lugar de minha origem, para abordar os sentimentos universais, sem, no entanto, me restringir ao que se poderia chamar de poesia regional.

E para finalizar, quando estive em Salvador em 2005, e conheci vc e vários poetas nordestinos vi a fluência que a maioria de vocês têm em declamar, improvisar. Isso é coisa do Nordeste mesmo, está no sangue?

JIVM – Que os nordestinos têm uma memória de causar inveja e a poesia no sangue isso é um fato. Mas nas outras regiões também há muitos recitais, onde os poetas espalham seus versos aos quatro cantos, a exemplo do Rio grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde acontecem sistematicamente vários recitais, com agenda anual já definida. De modo que existem por todas as partes os obstinados, que são aqueles que conduzem a chama do fogo sagrado da poesia nos tempos e pelos tempos.

Meu cachorro Atahualpa

Maria Odete | Prosa & Poesia | Sexta, 29 de Agosto de 2008

Para Bartolomeu Moreira Monteiro

Urda e Atahualpa

Penso que, no mundo dos cachorros, Atahualpa às vezes aparece como um cachorro exibido, como algumas crianças que viajam para a Disney e depois ficam se pavoneando na escola, cheias de importância, diante de amiguinhos que talvez só foram ao Beto Carrero ou talvez nem lá foram.

É que o Atahualpa é um cachorro de apartamento, e no condomínio onde moro, que tem 64 apartamentos, deve ter pelo menos uns 40 cachorros (mais dois gatos e dois papagaios, quanto sei), e tirando um outro cachorro que anda até de moto, Atahualpa foge inteiramente ao modelo “cachorro de apartamento”. Desde o primeiro dia que chegou que eu o levo por todos os lados onde posso, deixo-o correr livre pela natureza, acampo com ele, deixo-o comer tudo o que um cachorro pode comer. Ouço horrorizadas expressões de gente moderna, que tem cachorros modernos, movidos à ração:

- Não se pode dar nada além de ração aos animaizinhos! Leite, nem pensar! Tu estás louca – leite lhes dá dor de barriga!– e então lembro dos cachorros da minha infância, que comiam arroz, feijão, salada e carne, como todo o mundo, e aipim com molho, ou pão com manteiga ou sem manteiga, ou fosse lá o que fosse, e viviam longas vidas de 15, 20 anos, o que é velhice extremada para um cachorro. E deixo Atahualpa comer de tudo (em uma das refeições do dia faço questão que ele coma ração, tipo complemento alimentar, assim como as mães fazem as crianças tomarem complexos vitamínicos), e ele começa o dia querendo bolo com leite, bem misturadinho, amassadinho, para não ter o trabalho de mastigar. Há que ser bolo, pois pão, para ele, exibido como é, nem pensar – se bem que noutro dia, num camping, apareceu um cachorro faminto que devorou quase todo o pão que eu tinha, e então, na coisa da competição, Atahualpa se tomou de amores pelo pão, e comeu pão seco com o maior apetite e a maior voracidade. Tirando tais exceções, no entanto, há que ser bolo, e virei uma formiga carregadeira a trazer bolos ingleses do supermercado, sendo que eu quase nunca como bolo e Atahualpa tenha definida preferência pelo bolo inglês, que num instantinho some da embalagem, diante do apetite dele.

Ele adora carne, claro, mas peixe, nem pensar. De peixe, a única coisa que gosta é de lagoas de peixe, onde há plantas aquáticas que ele ataca aos latidos, agarra-as com os dentes, acaba por mergulhar na água, e sabe como é, lagoas de peixe normalmente têm um certo cheiro característico, e depois de tais mergulhos, há que se levar Atahualpa para casa e botá-lo debaixo do chuveiro, outra coisa inconcebível para cachorros de apartamentos, que tomam banho em pet-shops sofisticados, são secados com secador e cortam as unhas com tesourinha. Só uma vez um veterinário se meteu à besta e andou cortando as unhas do meu cachorrinho – nunca mais tal ato se repetiu. As unhas de Atahualpa se gastam de tanto andar e correr, seja no cimento das calçadas, seja nos amplos espaços da Natureza, como na beleza desta pousada onde estou nesta sexta-feira-santa, com direito a lagoa de peixe, rio, matas e campinas de grama com muitas flores, e ontem à noite Atahualpa chegou de volta tão molhado e tão cheio de carrapichos, que um dos olhos dele nem abria, tantas foram as camada de carrapicho que foram se sobrepondo umas às outras na sua peluda cara de cachorro safado, e eu tive que ajudá-lo a livrar o olho e o resto do pêlo, e ele estava com tamanha fome que devorou um pote de ração sem o menor constrangimento, ele que faz todo o tipo de frescura para comer só bolo e carne.

Diria que Atahualpa é um cachorro feliz, enquanto o observo, neste momento, em correria e lutas com uma cachorra adulta daqui da pousada, um feixe de músculos a corcovear pela grama, ao lado da lagoa de peixes, coisa que não seria admitida pelos donos dos seus colegas ”de apartamento”. É por isto que digo que acho que ele deve se comportar muito exibidamente diante da sua turma, tipo aquelas crianças que viajam para a Disney e que depois se acham mais importantes que as outras nas salas de aula. Também, pudera! Quantos cachorrinhos tem a vida que ele tem?

Blumenau, 21 de Março de 2008
Urda Alice Klueger - Escritora

Lá se vai o poeta do mar - Boa viagem Caymmi!

Maria Odete | Prosa & Poesia | Domingo, 17 de Agosto de 2008

Um poema e uma linda canção - O Bem do Mar

Um pescador tem dois amor
Um bem na terra, um bem no mar

O bem de terra é aquela que fica
Na beira da praia quando a gente sai

O bem de terra é aquela que chora
Mas faz que não chora quando a gente sai

O bem do mar é o mar, é o mar
Que carrega com a gente
Pra gente pescar

Segundo Danielle Simões, para o JB Online, o enterro do cantor e compositor Dorival Caymmi, no Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio, aconteceu em sintonia com a personalidade do mestre que se despedia: tranqüilo, suave, cheio de emoção e serenidade. O cortejo reuniu pouco mais de cem pessoas, entre fãs, artistas, e toda a família Caymmi.

Para Nei Duclós, Dorival Caymmi não canta a praia ou o mar, canta a pesca, atividade do trabalhador que arrisca a vida todos os dias no desempenho do ofício. Sua obra é um épico sobre a morte dos que lutam para sobreviver num ambiente hostil, o oceano, que atrai pela necessidade e seduz para uma armadilha mortal quando acena para o lazer em pleno expediente. O bem que o pescador tem no mar é a ilusão de que pode abandonar o trabalho enquanto navega e entregar-se ao que lhe é vedado, o prazer.

Na entrevista que concedeu à jornalista e autora de ‘Dorival Caymmi - O Mar e o Tempo’ (Editora 34), ao completar 90 anos, Caymmi nos transmite a sua receita de vida. “O sentido da vida é uma beleza que Deus criou: viver é lutar, mas também viver é viver; viver é aproveitar o que Deus manda. Deus nos dá diariamente e repete para que você não esqueça: o sol amanhece, o sol se põe, a lua faz essa viagem em torno da Terra. Essa beleza da vida natural é o grande privilégio que o homem tem. E a contemplação, sem deixar de funcionar e fazer funcionar suas sabedorias, seus conhecimentos para ajudar a si e ao seu próximo.”

A Ave da Vida

admin | Prosa & Poesia | Quinta, 24 de Julho de 2008

Pássaros

de Maria Odete Olsen

dentro de mim mora uma ave
cujo vôo de liberdade
tolhi por um sentimento
qualquer por vaidade
para ter uma ave
dentro de mim

longos anos se passaram
e esta ave dentro de mim
sobrevive em simbiose
com o meu sangue a minha essência
calada prisioneira
sem vôos nem cantos
apenas uma ave
dentro de mim

agora já bem tarde percebo
que uma ave enterrou suas garras
em mim para morrer
e como dói essa ferida
de uma ave encarcerada
cujo vôo de liberdade tolhi
para carregar esse orgulho
de ter uma ave
dentro de mim

hoje lágrimas derramo inutilmente
por esta ave que perdi
suas asas inúteis agora apodrecem
dentro de mim

Este é um poema que foi publicado em 1991, no livro Sem rimas e sem razão.
Este livro publicado pela Editora Paralelo 27, projeto de meu ex-marido e escritor Olsen Jr., surgiu porque acreditava que se não publicasse “aquelas coisas” que gardava em uma gaveta, jamais realizaria meu sonho. Nessa época ainda morava em Blumenau e sonhava em ser uma escritora. O projeto secundário, de sobrevivência, foi começar a trabalhar na extinta TV Coligadas. E assim a televisão foi absorvendo a minha vida. E tudo mudou para sempre.

Melancolia

admin | Prosa & Poesia | Sábado, 21 de Junho de 2008

de Maria Odete Olsen

Folhas de outono

“Acredito que a mulher não se ressinta tanto por se dar em pequenas doses, mas por se dar em vão.”Anne Morrow Lindemberg

será esse vazio essa ausência que me levam de mim
e tanto me sobrecarregam e me igualam a um molotov
de emoções que sem eco em mim ricocheteiam e em
minhas artérias e nervos implodem

será essa indolência que me adormece os membros
aflora uma dor de entranhas uterina
e o único movimento que emito é fixar o horizonte
e nele colocar meus olhos como garras e tentar assim
segurar o novo o além o que não imagino que possa vir

sentimentos me queimam nas sombras impassíveis e impiedosos
por vezes desse labirinto imagens e lembranças bailam
doces e até suaves mas em outras trazem tamanha
frieza e crueldade como a indiferença
adaga com que se rejeita e se fere de dor obrigando
a nós e ao outro a cada dia desfalecer um tanto
tal castelo de areia desmantelado sob o impacto das ondas
ou como folhas secas levadas pela inconseqüência
dos ventos de inverno

nestes dias quando tamanha melancolia me imobiliza
e carente de um horizonte meus olhos na escuridão se perdem
a vontade que me invade é a de mergulhar num imenso lago
retroceder através de suas águas muito aquém de todas
as minhas vidas num tempo muito antes de ter sido concebida
voltar a não ser nada nem um sopro ou sonho algum
pois antes de ter sido gerada quando penso
nesses momentos de solidão absoluta
quisera ter tido eu a opção
de nunca ter nascido.

A mulher invisível

admin | Prosa & Poesia | Sábado, 7 de Junho de 2008

Alusão à Gertrudes Koprowsk

Em memória à Gertrudes Koprowsk*

Às vezes seus olhos buscavam algo na linha do horizonte, muito além das montanhas de onde escorria a água límpida, cristalina, em fios que deslisavam por entre as raízes disformes e firmes formando pocinhas, riachinhos, pequenas cascatas. No entanto não era de fitar o horizonte acima delas, das montanhas. Parece que nascera para não perceber as coisas grandes como a imensidão do ceú azul ou as nuvens que a assustavam no verão quando engrossavam escuras, despejando jorros de água que acabavam alagando todo o descampado ou quando delas partiam relâmpagos furiosos que riscavam a noite densa apavorando os animais. Nem o mar. Nunca vira o mar, nem escutara o barulho de suas ondas quebrando contra a praia passiva ou se esvaindo e sumindo na areia, para novamente reaparecer com toda a força e daí se esvair e sumir de novo. Talvez não fosse entender esse capricho da natureza, tão forte quando a transformação das nuvens. Seus olhos não olhavam grande, eles foram acostumados e fixar as pequenas coisas de um cotidiano insignificante, mas muito trabalhoso. Coisas ao redor da casa como matos, capoeiras, seixos que se acumulavam no quintal junto com as pedras de rio e outras coisas fixas. Das que se movimentavam poderia perder horas em busca do ninho das formigas carregadeiras incansáveis no labor e avassaladoramente vorazes e cruéis quando decidiam destruir as laranjeiras. Perdia horas mexendo nos temperinhos, salsas, cebolinhas, açafrão, manjericões ou nos pés de moranguinhos que sempre protegia com serragem, para que, quando depois da floração, se transformassem na frutinha vermelha, poderiam ser colhidos, tão limpinha tal qual cristal luminoso de vitrine. Mas ela também não era de ver vitirines como as conhecemos. Nem usava cores, ou enfeites que me lembre. Era muito discreta e silenciosa. Como se possuísse uma personalidade monocromática.

Mas apreciava a organização. Depois que colocava essas coisas de quintal numa certa ordem que só em sua mente existia, passava no rancho, pegava os dois baldes de latão e ia para o estábulo. Atravessava o grande terreiro lentamente, segurando-os firme em cada mão, como o destino que lhe fora conferido. De uma certa distância, sua figura lembrava aquelas descrições de livros infantis. Era alta, magra, ombros encurvados escondidos sob vestidos quase longos cobertos por um imenso avental. Já os cabelos grisalhos eram enrolados num coque sempre preso a altura da nuca. As veses escondia o penteado sob um lenço branco de algodão e sobre ele ainda colocava um chapéu de palha. Assim se protegia do sol, assim se escondia da vida, caminhando com um certo cuidado, lentamente, passo a passo, talvez porque suas feridas devessem doer muito, mas aparentemente não a abalavam. No grande estábulo, fazia uma espécie de vistoria nos animais, depois pegava um banquinho e ia de vaca em vaca ordenhar o leite. Todo o líquido branco, quentinho e viscoso era despejado num outro recipiente grande e muito limpo que depois alguém levava e deixava no portão em frente a casa. De repente aparecia uma carroça repleta de latões similares e num deles o leite era despejado para a comercialização. Era vendido como as verduras que plantavam, pequenas fontes de renda e de sobrevivência dos colonos do Caminho das Areias.

Daí voltava para o rancho e juntava vários seichos de lenha, gravetos e outros pedaços maiores que eram recolhidos até dentro da cozinha e despejados no caixão próximo ao fogão. Na verdade ele sempre ardia. O calor e a braza vermelha da lenha que queimava quase ininterruptamente, ainda vivem em minha memória. Sempre havia água quente que ao anoitecer ela despejava numa grande bacia para executar o seu ritual particular.

Alusão à Gertrudes Koprowsk

Havia também o homem, o marido que exigia a sua atenção. Ela simplesmente o atendia, solícita, cumpridora de um dever das mulheres daquela geração, sem se importar com sua arrogância, com seu cheiro de cachaça e outros odores nem tão sutis que ele exalava. Não importava o que pudesse acontecer, ela sempre estava lá e o servia. Depois lhe dava as costas sutilmente como se precisasse pegar algo no armário, ou entre as panelas ou ajeitava as brasas do fogão e assim, ia se dissipando entre os utensílios como um deles, que se olha mas não se vê. Era um relacionamento de poucas palavras, alguns gritos ou impropérios contra a vida, os vizinhos, as vacas, a existência. Ele chegava com o chapéu de feltro preto jogado para trás e dava um cumprimento de onde os outros avaliavam se tinha bebido muita ou pouca cachaça. Pendurava o chapéu no prego da parede e ia sentar no outro lado do varandão que antecedia a cozinha e que possuía a bomba de água, alguns bancos de madeira encostados na parede, algumas plantas penduradas e outros baldes grandes. Então tirava o rolo de fumo preto do bolso da calça, abria o canivete e começava a raspar aquela coisa que ia acumulando entre os dedos e a palma da outra mão e que, com o passar dos anos ficou impregnada nas linhas de suas impressões digitais. Depois, com o canivete cortava a palha de um certo tamanho, colocava esse fumo nela e começava a enrolar o cigarrinho que fumava até o finalzinho da chepa. Por isso ostentava rachaduras escuras em cada mão. Eram como tatuagens agregadas da vida, impressas ao longo dos anos. Podia fumar por horas o seu palheiro, quando não havia bebido muito e não tinha assunto para reclamar, apenas olhando para seu impenetrável horizonte interior. Caso contrário podia armar a maior briga e colocar todos para fora de casa no meio da noite e ainda dar uns tiros de espingarda para provocar mais medos, estratégia que lhe conferia o supremo poder paterno. Sentimento tênue, disseminado até entre os vizinhos, parece. Nessas horas de transtornos, ela pegava as crianças e corria. Quase sempre terminava a noite dormindo na casa de um irmão que morava horas dali.

Mas não era sempre assim. Aos domingos ele preparava o carro de mola conduzido por dois belos cavalos e todos iam a missa rezar, pedir perdão à Deus por seus pecados e depois conversavam com parentes e amigos. Mas normalmente, no dia a dia, quando ele chegava à noite em casa, a comida já estava posta na mesa. Uma carne, um cereal ou raiz cozidos, legumes e pão caseiro. Bebia vinho da colônia ou café preto. Daí cumpria o ritual do palheiro que fumava na porta da cozinha olhando o horizonte, passando a mão na cabeça do cachorro, sonhando o que nunca se soube, para daí deixar o corpo quedar e dormir.

Alusão à Gertrudes Koprowsk

Ela, ao contrário, antes de deitar, colocava a camisola longa de pano cru e mangas compridas. Depois soltava os cabelos grisalhos, longos e os penteava com bastante vagar, docemente, inclinando à cabeça para um ou outro lado. Era um jeito de se acariciar, talvez a única carícia de todo aquele dia. O que pensaria nesses momentos com o outro corpo encurvado do outro lado da cama, o de seu homem de costas, ressonando? Depois se curvava e lentamente ia desenrolando as faixas amarradas nos tornozelos. Faixas enormes empapadas de sangue. Isso mesmo, ela possuia em cada perna próxima ao tornozelo feridas enormes que não cicatrizavam nunca. Como podia ser isso? Ela as lavava bastante, lentamente e com cuidado, todos os dias por anos seguidos. Daí secava tudo e voltava a enrolar as faixas. Em seguida deslisava o corpo no outro lado da cama não invadido e silenciosamente adormecia. Um dia, não acordou mais. Dizem que morreu do coração como uma brisa que o vento carrega. Parece que nunca ouvira sua voz, mas lembrava de alguém gentil que muito carinhosamente pedia a menina pegar um doce no armário, a cuca caseira que fazia em fornadas e eram uma delícia com cobertura de frutas da época e farofa doce.

Quando seu corpo foi descendo lentamente para o túmulo, a menina começou a chorar como nunca chorara em toda a sua vida. Era-lhe difícil entender que uma vida estava acabando e que por isso aquele corpo tinha de ser devolvido à terra. Naquele dia ela entendeu apenas que a vida acaba. Não entendeu a parte da terra, nem o ritual do barro sendo jogado ou naquele caixão invólucro escondendo para sempre um corpo sem vida que tanto amara. Era uma das faces da morte que lhe era apresentada pela primeira vez de que se lembre conscientemente. E por isso ela chorou muito mais, aos soluços. Seu pai a abraçara, não entendeu muito dessa emoção repentina da criança. Anos mais tarde alguém disse para a menina que ela era o renascimento daquela mulher que fora sepultada e que só não se tornara a outra, porque escrevia poemas. Mas ela só veio a compreender um pouco disso, muito, muito tempo depois, quando ela também precisou se calar em sua primeira morte. Um medo muito grande tomou conta de seu coração. Era como se ouvisse o barro caindo aos poucos sobre o seu caixão. E uma lágrima e depois outras tantas, rolaram em sua face de mulher.

Gertrudes Koprowsk, avó materna de Maria Odete Onório Olsen, faleceu no dia 06 de junho de 1964.

Por este cotidiano, vale a lembrança de Augusto dos Anjos em Versos Íntimos

admin | Prosa & Poesia | Quarta, 9 de Abril de 2008

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo amigo é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Solitudes

admin | Prosa & Poesia | Segunda, 24 de Março de 2008

de Maria Odete Olsen

hoje fechei as cortinas tranquei as portas apaguei a luz
necessitava de sombras vidros embaçados
espaços em penumbra e folhas em branco
fosse a vida atemporal e não se identificasse o dia e a noite
que o corpo tivesse como referencial apenas suas marcas e imperfeições
e as lágrimas ah as lágrimas! eram necessárias e que rolassem

hoje acordei sem histórias e indiferente ao amor
felina rondava meus espaços demarcando áreas
rasgando sedas buscando razões nos jornais
nas capas dos livros algo que me atingisse
que fosse doce e amargo suave e cruel
mas que emocionasse ou me enjeitasse de vez
hoje mergulhei no mais profundo de mim mesma
em busca de razões que justificassem essa persistência de existir
em alguns momentos paro e fixo a opacidade do vaso
e nada vejo além de um vulto e isso me agrada o ser e não ser
ah como o cérebro é opressor impiedoso e inacessível
como é deprimente saber-se instrumento de diálogos internos
a voz de dentro que empurra ao mesmo tempo que retém

assim vivi o momento refém de mim e de outros
nas fotos nos quadros e nas violetas que voltam a florir no inverno!

Fragmentos do Poema Sujo

admin | Prosa & Poesia | Sexta, 21 de Março de 2008

de Ferreira Gullar
à Floripa em seus 282 anos de fundação

Ah, minha cidade verde
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias por cima dos mirantes
minha cidade sonora
desabam as águas servidas
me arrastam por teus esgotos
de paletó e gravata…
Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas…
Para onde foram essas águas
de tantos banhos de tarde?
Rolamos com aquelas tardes
no ralo do esgoto…

Uma Arte

admin | Prosa & Poesia | Quarta, 19 de Março de 2008

Elizabetb Bishop
(in O Iceberg Imaginário e outros poemas
tradução Paulo Henrique Britto)

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! e nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistéio
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.