
Em memória à Gertrudes Koprowsk*
Às vezes seus olhos buscavam algo na linha do horizonte, muito além das montanhas de onde escorria a água límpida, cristalina, em fios que deslisavam por entre as raízes disformes e firmes formando pocinhas, riachinhos, pequenas cascatas. No entanto não era de fitar o horizonte acima delas, das montanhas. Parece que nascera para não perceber as coisas grandes como a imensidão do ceú azul ou as nuvens que a assustavam no verão quando engrossavam escuras, despejando jorros de água que acabavam alagando todo o descampado ou quando delas partiam relâmpagos furiosos que riscavam a noite densa apavorando os animais. Nem o mar. Nunca vira o mar, nem escutara o barulho de suas ondas quebrando contra a praia passiva ou se esvaindo e sumindo na areia, para novamente reaparecer com toda a força e daí se esvair e sumir de novo. Talvez não fosse entender esse capricho da natureza, tão forte quando a transformação das nuvens. Seus olhos não olhavam grande, eles foram acostumados e fixar as pequenas coisas de um cotidiano insignificante, mas muito trabalhoso. Coisas ao redor da casa como matos, capoeiras, seixos que se acumulavam no quintal junto com as pedras de rio e outras coisas fixas. Das que se movimentavam poderia perder horas em busca do ninho das formigas carregadeiras incansáveis no labor e avassaladoramente vorazes e cruéis quando decidiam destruir as laranjeiras. Perdia horas mexendo nos temperinhos, salsas, cebolinhas, açafrão, manjericões ou nos pés de moranguinhos que sempre protegia com serragem, para que, quando depois da floração, se transformassem na frutinha vermelha, poderiam ser colhidos, tão limpinha tal qual cristal luminoso de vitrine. Mas ela também não era de ver vitirines como as conhecemos. Nem usava cores, ou enfeites que me lembre. Era muito discreta e silenciosa. Como se possuísse uma personalidade monocromática.
Mas apreciava a organização. Depois que colocava essas coisas de quintal numa certa ordem que só em sua mente existia, passava no rancho, pegava os dois baldes de latão e ia para o estábulo. Atravessava o grande terreiro lentamente, segurando-os firme em cada mão, como o destino que lhe fora conferido. De uma certa distância, sua figura lembrava aquelas descrições de livros infantis. Era alta, magra, ombros encurvados escondidos sob vestidos quase longos cobertos por um imenso avental. Já os cabelos grisalhos eram enrolados num coque sempre preso a altura da nuca. As veses escondia o penteado sob um lenço branco de algodão e sobre ele ainda colocava um chapéu de palha. Assim se protegia do sol, assim se escondia da vida, caminhando com um certo cuidado, lentamente, passo a passo, talvez porque suas feridas devessem doer muito, mas aparentemente não a abalavam. No grande estábulo, fazia uma espécie de vistoria nos animais, depois pegava um banquinho e ia de vaca em vaca ordenhar o leite. Todo o líquido branco, quentinho e viscoso era despejado num outro recipiente grande e muito limpo que depois alguém levava e deixava no portão em frente a casa. De repente aparecia uma carroça repleta de latões similares e num deles o leite era despejado para a comercialização. Era vendido como as verduras que plantavam, pequenas fontes de renda e de sobrevivência dos colonos do Caminho das Areias.
Daí voltava para o rancho e juntava vários seichos de lenha, gravetos e outros pedaços maiores que eram recolhidos até dentro da cozinha e despejados no caixão próximo ao fogão. Na verdade ele sempre ardia. O calor e a braza vermelha da lenha que queimava quase ininterruptamente, ainda vivem em minha memória. Sempre havia água quente que ao anoitecer ela despejava numa grande bacia para executar o seu ritual particular.

Havia também o homem, o marido que exigia a sua atenção. Ela simplesmente o atendia, solícita, cumpridora de um dever das mulheres daquela geração, sem se importar com sua arrogância, com seu cheiro de cachaça e outros odores nem tão sutis que ele exalava. Não importava o que pudesse acontecer, ela sempre estava lá e o servia. Depois lhe dava as costas sutilmente como se precisasse pegar algo no armário, ou entre as panelas ou ajeitava as brasas do fogão e assim, ia se dissipando entre os utensílios como um deles, que se olha mas não se vê. Era um relacionamento de poucas palavras, alguns gritos ou impropérios contra a vida, os vizinhos, as vacas, a existência. Ele chegava com o chapéu de feltro preto jogado para trás e dava um cumprimento de onde os outros avaliavam se tinha bebido muita ou pouca cachaça. Pendurava o chapéu no prego da parede e ia sentar no outro lado do varandão que antecedia a cozinha e que possuía a bomba de água, alguns bancos de madeira encostados na parede, algumas plantas penduradas e outros baldes grandes. Então tirava o rolo de fumo preto do bolso da calça, abria o canivete e começava a raspar aquela coisa que ia acumulando entre os dedos e a palma da outra mão e que, com o passar dos anos ficou impregnada nas linhas de suas impressões digitais. Depois, com o canivete cortava a palha de um certo tamanho, colocava esse fumo nela e começava a enrolar o cigarrinho que fumava até o finalzinho da chepa. Por isso ostentava rachaduras escuras em cada mão. Eram como tatuagens agregadas da vida, impressas ao longo dos anos. Podia fumar por horas o seu palheiro, quando não havia bebido muito e não tinha assunto para reclamar, apenas olhando para seu impenetrável horizonte interior. Caso contrário podia armar a maior briga e colocar todos para fora de casa no meio da noite e ainda dar uns tiros de espingarda para provocar mais medos, estratégia que lhe conferia o supremo poder paterno. Sentimento tênue, disseminado até entre os vizinhos, parece. Nessas horas de transtornos, ela pegava as crianças e corria. Quase sempre terminava a noite dormindo na casa de um irmão que morava horas dali.
Mas não era sempre assim. Aos domingos ele preparava o carro de mola conduzido por dois belos cavalos e todos iam a missa rezar, pedir perdão à Deus por seus pecados e depois conversavam com parentes e amigos. Mas normalmente, no dia a dia, quando ele chegava à noite em casa, a comida já estava posta na mesa. Uma carne, um cereal ou raiz cozidos, legumes e pão caseiro. Bebia vinho da colônia ou café preto. Daí cumpria o ritual do palheiro que fumava na porta da cozinha olhando o horizonte, passando a mão na cabeça do cachorro, sonhando o que nunca se soube, para daí deixar o corpo quedar e dormir.

Ela, ao contrário, antes de deitar, colocava a camisola longa de pano cru e mangas compridas. Depois soltava os cabelos grisalhos, longos e os penteava com bastante vagar, docemente, inclinando à cabeça para um ou outro lado. Era um jeito de se acariciar, talvez a única carícia de todo aquele dia. O que pensaria nesses momentos com o outro corpo encurvado do outro lado da cama, o de seu homem de costas, ressonando? Depois se curvava e lentamente ia desenrolando as faixas amarradas nos tornozelos. Faixas enormes empapadas de sangue. Isso mesmo, ela possuia em cada perna próxima ao tornozelo feridas enormes que não cicatrizavam nunca. Como podia ser isso? Ela as lavava bastante, lentamente e com cuidado, todos os dias por anos seguidos. Daí secava tudo e voltava a enrolar as faixas. Em seguida deslisava o corpo no outro lado da cama não invadido e silenciosamente adormecia. Um dia, não acordou mais. Dizem que morreu do coração como uma brisa que o vento carrega. Parece que nunca ouvira sua voz, mas lembrava de alguém gentil que muito carinhosamente pedia a menina pegar um doce no armário, a cuca caseira que fazia em fornadas e eram uma delícia com cobertura de frutas da época e farofa doce.
Quando seu corpo foi descendo lentamente para o túmulo, a menina começou a chorar como nunca chorara em toda a sua vida. Era-lhe difícil entender que uma vida estava acabando e que por isso aquele corpo tinha de ser devolvido à terra. Naquele dia ela entendeu apenas que a vida acaba. Não entendeu a parte da terra, nem o ritual do barro sendo jogado ou naquele caixão invólucro escondendo para sempre um corpo sem vida que tanto amara. Era uma das faces da morte que lhe era apresentada pela primeira vez de que se lembre conscientemente. E por isso ela chorou muito mais, aos soluços. Seu pai a abraçara, não entendeu muito dessa emoção repentina da criança. Anos mais tarde alguém disse para a menina que ela era o renascimento daquela mulher que fora sepultada e que só não se tornara a outra, porque escrevia poemas. Mas ela só veio a compreender um pouco disso, muito, muito tempo depois, quando ela também precisou se calar em sua primeira morte. Um medo muito grande tomou conta de seu coração. Era como se ouvisse o barro caindo aos poucos sobre o seu caixão. E uma lágrima e depois outras tantas, rolaram em sua face de mulher.
Gertrudes Koprowsk, avó materna de Maria Odete Onório Olsen, faleceu no dia 06 de junho de 1964.